segunda-feira, 4 de maio de 2009

a utilidade e história do leque


O leque tem na China uma história muito antiga. O seu uso remonta pelo menos – supõem os arqueólogos – ao neolítico.
Jà nas primeiras descobertas podemos ver os abanos de cabo comprido, gravados em objectos de bronze dos Estados Combatentes (475-221 a.c.) e do período Zhou do Este (770-256 a.c.). Numa tumba do distrito de Jiangli foram encontrados restos de um leque de plumas com cabo de madeira.
No que respeita o seu uso, ele era manejado pelos servos para dar frescura aos seus amos e resguardá-los dos raios solares. Em muitos casos eram símbolos de poder.
Desde finais do período dos Estados Combatentes até à época das dinastias, Han no Este e no Oeste (206-220 a.n.e.), os leques tinham forma curva e eram feitos com finas tiras de bambu. Eram usados pelos servos quando assavam carnes ou extraíam sal e pelos seus senhores para se defenderem dos rigores do sol.
Durante as dinastias Shui e Tang (581-907 d.c.) o leque mais comum era o fabricado de seda. Era conhecido como o Leque Imperial o leque da alegria conjunta e unidade e era feito de finas hastes de bambu e madeira, cobertas com sedas delicadas e transparentes.
No princípio da dinastia Tang os leques eram na maioria redondos ou ovóides, havia-o também hexagonais e octogonais em forma de flores: begónias, girassóis e da ameixoeira. Na poesia clássica podemos ler muitos sentimentos de jovens relacionados com o tema e também diversos registos das expressões sobre as faces dos leques. Sabemos por esta do uso que lhe era dado.
No período das dinastias Song e Yuan (960-1368 d.c.), o leque mais usado era o de seda. Surgiu também um novo tipo – o dobrável – que continua a usar-se até aos nossos dias.
Ainda que este tipo de leque já existisse na época dos Song do Norte, somente alcançou o seu apogeu nas dinastias Ming e Qing (1368-1911 d.c.).
Desde a dinastia Ming o uso do leque de pregas dobrável generalizou-se, primeiro na corte e depois nas outras classes sociais. Ao princípio eram de poucas hastes e depois começaram a ser feitos com maior número e mais finas. Ao imperador agradava oferecer, às suas concubinas e ministros de confiança, leques lindamente decorados e ornados com fios dourados. Os mais correntes eram oferecidos aos funcionários da corte.
De acordo com o gosto dos cortesãos, literatos e pintores, os leques de pregas foram convertidos em refinadas obras de arte. Como materiais eram usados desde o bambu ao sândalo, carapaça de tartaruga até ao ouro, o jade e o marfim. Os literatos preferiam os leques de hastes de bambu talhado.
Desde a dinastia Ming até à actualidade, surgiram numerosos artistas famosos pelo seu trabalho no talhar das hastes de bambu com motivos variados: paisagens, flores, pássaros, animais, desenhos de telas e retratos e caligrafias.
A cobertura do leque transformou-se num espaço onde pintores e calígrafos podiam mostrar seu talento e habilidade.
As coberturas de pregas podiam ser de papel ou seda, sendo as primeiras as mais usadas. A maioria dos pintores e calígrafos gostavam de desenvolver o seu talento neste espaço limitado, mediante poemas ou outros tipos que exprimissem os seus sentimentos.
Alguns leques decorados por calígrafos e pintores das dinastias Ming e Qing – Tang Bohu, Zheng Banqiao, Ren Bonian – converteram-se em autênticos tesouros.
Entre os artistas comtemporâneos destacam-se neste campo: Zhang Daqian, Qi Baishi, Huang Binhong, Fu Baoshi, Li Keran e outros mais.
As funções do leque foram ampliadas com o tempo. Além de servir para refrescar ou espantar moscas e mosquitos, serve também como instrumento cerimonial, na decoração dos salões e como adorno pessoal. É também um objecto estético de grande preferência dos coleccionistas e faz parte do guarda-roupa de alguns artistas de cena. É tema de inspiração para poetas e escritores.
Na realidade o leque constitui já uma das manifestações da cultura chinesa. A sua arte é única: de plumas, de seda, de papel, de bambu, de palma, de jade. Também os há de marfim finamente rendilhado, assim como de aromática madeira de sândalo.
Cada região tem o seu próprio e inconfundível estilo. Assim – entre outros – são muito famosos os leques de Suzhou, os de Shexián, os de Sichuan e os de Hangzhou.


A linguagem dos leques em exposição

Por Adriane Hagedorn*

O Museu Histórico Nacional está encerrando neste início de março a exposição de leques "Uma Brisa no Ar", com curadoria da museóloga e pesquisadora Vera Lima. Em meio à exposição, encontra-se a origem mitológica do leque, suas terminologias e maneiras de usá-lo.

A mitologia greco-romana trata de explicar a origem do que nos cerca. Quando estas histórias encantadoras nos chegam, tomam conta de imediato de nossas fantasias, as cercam e as cultivam. Para descrever a origem do leque, relembro a lenda grega de Eros e Psiquê. Poros (Recurso) estava adormecido quando avistado por Pênia (Pobreza), que o vê tão belo e resolve ter um filho com ele. Nasce Eros (Cupido) que herda características do pai, da mãe e do dia em que nasceu (o mesmo dia de Afrodite, deusa da beleza e do amor). Eros tem a carência típica da pobreza, mas não lhe faltam recursos, é escravo da beleza, a mais importante de suas características na lenda mitológica Eros é um caso único, não é mortal, nem deus, nem semi deus. Ele nasce, cresce e morre, nasce, cresce e morre e assim sucessivamente. A lenda reza que quem é flechado por Eros herda todas as suas características: a carência (do ser apaixonado), as intensidades (quando apaixonado, um dia pode ser o mais feliz do mundo e em horas entrar em profunda depressão), recursos (nos nossos sonhos moldamos o ser apaixonante), escravo da beleza (quem ama o feio, bonito lhe parece), e a última característica: nem mortal, nem imortal, assim como a paixão que nasce, cresce e morre até que encontra um outro ser para se apaixonar.

A mitologia é construída a partir da história oral, por isso encontramos diferenças entre alguns mitos e lendas. É o que acontece nessa lenda, que apresenta também outra versão. Afrodite (Vênus) soube que seu templo estava sendo abandonado, pois na Terra havia uma mortal de beleza inigualável, Psiquê (Alma). Afrodite pede ao seu filho Eros que se vingue da mortal. Ao vê-la, Eros perde-se em tamanha beleza, fere-se em uma de suas flechas e apaixona-se. Eros põe sobre ela um encantamento e ninguém mais ouve falar de Psiquê. Ela não se casa. Os pais, preocupados, consultam o oráculo, e obtém a resposta de que a filha deveria ser posta sozinha no alto de uma montanha vestida de noiva. Após algum tempo sozinha, o vento Zéfiro a leva até o alto da montanha, ela entra numa caverna e ouve uma voz que lhe diz: eu sou seu noivo, vamos viver nesta caverna felizes, mas não posso lhe revelar meu rosto. Em uma conversa com as irmãs, Psiquê se convence de que deveria ver a face do noivo. A noite, ela acende uma lamparina e leva um susto, pois nunca tinha visto alguém tão lindo, deixa cair óleo no ombro de Eros e o acorda. Ele rompe com a amada, pois ela quebrou um pacto de confiança. Eros volta a morar com a mãe. Psiquê, em busca de reconquistá-lo, aceita algumas tarefas propostas por Afrodite. A última das tarefas era entrar no reino dos mortos e captar em uma caixinha um pouco da beleza da rainha das mortes, Percífane. Na volta, Psiquê sente-se atraída por uma pitada desta beleza e, ao abrir a caixa, é tomada pela beleza do sono da morte. Eros a encontra, prende a beleza da morte de volta dentro da caixa, a leva até Zeus, que a transforma em imortal dando-lhe ambrosia para comer e néctar para beber. Desde esse dia, a alma se tornou imortal, eles se casaram e viveram felizes para todo o sempre (característica serena do amor e não mais da paixão).

Como já disse nas primeiras linhas, as lendas se encarregam de nos explicar a origem de o que nos cerca. A lenda conta que o primeiro leque foi uma asa de Zéfiro, arrancada de suas costas por Eros para abanar sua amada Psiquê, adormecida num leito de rosas. Mas, deixando de lado o mundo fantasioso, passamos agora a ver o leque com os olhos do século XIX, época em que as damas os usavam para se refrescar, enquanto eram cortejadas por cavalheiros com punhos e golas de renda entre pitadas de rapé.

O leque não exercia a função única de refrescar as damas, ele era também fonte de linguagem. Uma dama deveria saber como se portar com um leque. Alguns exemplos da linguagem dos leques:

Eu te amo: Esconder os olhos com o leque aberto.
Aproxime-se: Andar com o leque, conduzindo-o aberto na mão esquerda.
Amo outro: Girar o leque na frente do rosto com a mão esquerda.
Quando nos veremos?: Leque aberto no colo.
Não me esqueça: Tocar o cabelo com o leque fechado.
Adeus: Abrir e fechar o leque.
Sim: Apoiar o leque no lado direito da face.
Não: Apoiar o leque no lado esquerdo da face.
Você é cruel: Abrir e fechar o leque várias vezes.
Não sairei hoje: Andar na sala (ao entrar) abrindo e fechando o leque.
Preciso falar com você: Tocar o leque aberto com as pontas dos dedos.
Desculpe: Manter o leque aberto na altura dos olhos.

Datados dos séculos XVIII, XIX e XX, os 109 leques expostos acompanham um glossário imprescindível:
Abano ou ventarola: Objeto em forma de leque, que se usa para atiçar o fogo ou para produzir correntes de ar.
Abébé: Leque, no idioma lorubá, produzido em diferentes metais e usado no Candomblé, como atributo de Oxum.
Alegoria: Cena com figuras representando personagens identificáveis pelos seus atributos, que procuram produzir idéias abstratas.
Baralho: Leque somente de varetas sem guarnição de papel, tecido ou plumas.
Cena campestre: Representação de cena com personagens desfrutando de entretenimento ao ar livre.
Cena de gênero: Representação de cenas da vida cotidiana.
Cena galante: Representação de cenas que incluem galanteios e folguedos em ambientes idílicos.
Chorão: Verniz de laca usado na China e no Japão.
Fitomorfos: Ornato que tem forma vegetal.
Filigranado: Ornato que tem forma imitando renda.
Folha ou pano: Parte plissada do leque, que recebe a decoração.
Mandarim: Leque colorido, modelo chinês, para exportação. Em folha de papel pintado dupla face, mostra cenas da corte com as diversas figuras humanas com os rostos de marfim e os trajes de seda. Conhecidos como "cem faces" ou "mil faces".
Monogramas: Entrelaçamento gráfico de duas ou mais letras iniciais ou das principais letras de um nome.
Ornato: Motivo decorativo que se aplica a qualquer obra de arte.
Vareta: Cada uma das hastes que compõem a armação de um leque.
Vareta mestra: Varetas extremas dos leques, sendo que a mais destacada, da frente, é a principal.
Zoomorfos: Termo usado para descrever motivos estilizados e ornamentações baseados em formas animais.
Para encerrar, uso um trecho descritivo da exposição: "A energia elétrica com seus ventiladores e aparelhos de ar condicionado relegou ao passado os delicados e românticos leques, estes instrumentos refrescantes que nos remetem ao tempo em que cavalheiros cortejavam nos salões as belas damas, que por intermédio dos leques animavam as suas esperanças ou golpeavam mortalmente seus sonhos".

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